Carta endereçada a um professor:
Filipa, professora de Oficina de Artes, no 10º e 12º anos, e mais tarde colega e amiga.
Querida Filipa,
Não serve esta carta para saber como me influenciaste no meu percurso como professor, nem tão pouco para saber tudo o que aprendi como teu aluno, e mais tarde como amigo, pois entendo que a construção pessoal e profissional, como fluxo constante e amplo, possui raros momentos em que podemos identificar uma aprendizagem única singular, precisa.
Recordo antes momentos que me marcaram e que como tal terão algum significado. Lembro-me das tuas aulas serem um enorme tempo de partilha e trabalho de grupo, em que faziamos papel reciclado, em grupos, e distribuíamos tarefas, nos ajudávamos, e descobriamos efeitos através da mistura de tintas, e passado uns dias verificavamos os resultados, quando o trabalho secava, para depois corrigirmos, ou experimentarmos um outro produtos, objecto a incorporar.
Lembro-me de pessoas muito rígidas, e outras temerosas, outras descontraídas, outras que ainda que fossem menos interessadas, acabavam por querer participar.
Lembro-me dos materiais novos que traziamos e das misturas que inventávamos, e que juntávamos naquele “caldo”. Lembro-me de andar sempre pintado, com as mãos azuis e vermelhas e amarelas, com os cabelos sujos e os casacos com manchas de gouache. E lembro-me de não me importar.
Ainda a propósito do papel recordo de um episódio em que um dos meus colegas se ter queixado de eu lhe estar a estragar o trabalho, pois eu tinha “violentamente” batido numa folha de papel acabadinha de fazer, com qualquer objecto que apanhasse à mão – agora que penso nisso outro dia com um aluno acabei por deixar que ele utilizasse no seu trabalho uma impressão provocada por um batuque inadvertido.
Ainda neste primeiro ano lembro-me da realização da minha prova final, em que consegui trazer todo o material que tinha em casa, numa caixa imensa – parecia que ia mudar de casa – das quais se contavam especiarias de cozinha e tudo o que apanhei à mão. Hilariante. Na verdade eu e a R. fizemos com que toda a gente se risse se nós.
Lembro-me de haver muita motivação, energia, e descoberta, de querer fazer sempre mais, e de uma energia estravasada ali, naquela sala.
No ano seguinte não foste nossa professora e penso ter regredido. Entendi, mais tarde, a necessidade de haver uma nova experiência com outro professor. Mas algo não correu bem.
A afectividade que havia transformou-se quando passado dois anos voltamos a ter-te como professora. Desse tempo lembro uma enorme apatia. Estúpida, suponho que própria da idade. Não recordo com agrado esse tempo. A única memória que guardo prende-se com o trabalho conjunto da turma, na reciclagem de uma peça de mobiliário. Sem projecto, o trabalho desenfreado soube a pouco e evidenciou alguns conflitos pessoais entre a turma. Não gostei desse ano.
Tudo isto é um passado distante. Aquilo que guardo hoje de ti, é a tua calma, as conversas lentas, são os teus gostos, a tua quinta, que te cansa e te alegra, onde te refugias, e a voz grossa e pausada que interrompe dos barulhos frenéticos dos teus alunos.
Beijos,
Ricardo
Análise da carta pessoal:
Segundo os perfis de professor apresentados em aula, podemos caracterizar , através da carta pessoal, a docente em causa com um perfil personalista e académico. Consideramos o perfil personalista na atitude de abertura face à aprendizagem dos alunos que a Filipa proporcionava, não exigindo o cumprimentos de prazos rigorosos, nem um número determinado de trabalhos. Era dado ao aluno a possibilidade de explorar (e “estragar” os trabalhos), e recriar a realidade a partir dos materiais de suporte que ele próprio desenvolvia, exigindo dele a capacidade de projectar um resultado ou pelo menos conceber mecanismos de desenvolvimento de uma ideia, quando “(…)em grupos, (…) nos ajudávamos, e descobríamos efeitos através de mistura de tintas, e passado uns dias verificavamos os resultados, quando o trabalho secava, para depois o corrigirmos, ou experimentarmos um outro produto, objecto a incorporar”. Ainda dentro deste perfil, podemos assinalar o carácter exclusivo das suas vivências, e experiências que transmitia, sempre de modo a não influenciar o trabalho, o juízo ou comportamento, mas corrigindo e balizando, ao mesmo tempo que inseria conteúdos. Mesmo quando a turma não respondia, existia uma mudança de estratégia para, reformulando, conseguir trabalhar conteúdos, quando, como se refere na carta, se procedeu à “reciclagem de uma peça de mobiliário”, de modo a podermos trabalhar o espaço.
Debruçando-nos sobre o segundo perfil onde a Filipa se insere, o académico, refira-se que a sua formação em pintura, era uma das ferramentas que utilizava enquanto docente, e como tal para desenvolver os enunciados dos trabalhos, na escolha dos suportes e técnicas. Neste âmbito, percebiamos que havia um grande domínio técnico, nomeadamente do desenho e da pintura, mas tal não fora referido na carta.
Ou seja, havia na forma e conteúdo das aulas da Filipa um vínculo pessoal que era muito específico e a liga a um percurso técnico próprio, como tal os exercícios eram muito ricos, porque bebiam quer da individualidade artística do professor que os elaborava e concebia o guião, quer da individualidade do aluno, que os desenvolvia e se deles se apropriava. A complementariadade destes dois perfis faz-se com uma preponderância do primeiro perfil sobre o segundo, uma vez que a Filipa, como foi referido, não esperava dos alunos uma replicação das sua técnica, ainda que exemplificasse pontualmente como executar os trabalhos, mas exigindo sempre dos alunos uma superação e uma procura de novos resultados, que fossem sobretudo o produto do percurso e entendimento pessoal de cada um de nós.
Estes dois perfis de professor são assim a meu ver, como foram, muito potenciadores da aprendizagem, e marcantes, razão pela qual a Filipa foi o professor mencionado neste exercício. Hoje como docente, e utilizando muitas referências desta e de outros docentes, esforço-me por proporcionar ao alunos, momentos de inovação, descoberta e formação, de forma não anónima, ou generalizada, mas incorporando conhecimento específico da minha formação, e vivência pessoal.
Carta endereçada por colega a um professor:
Caro Professor Jorge Duarte,
Espero que a mudança de escola tenha sido positiva, e que continue a inspirar os alunos, para que os anos de escola sejam os mais marcantes e especiais das suas vidas. Após um longo período de docência, que exerceu, na escola que é a do meu coração, desejo que a nova escola lhe traga também muita felicidade.
A Escola Secundária dos Casquilhos, os alunos, os professores, a gestão, e os funcionários, estou certa que ficaram para sempre na sua memória quanto na minha, como das melhores recordações que temos das nossas vidas. Ingressei na escola no 7º ano de escolaridade, mas foi do ensino secundário que guardo os melhores momentos, pois foi nesse período que professores e alunos estiveram mais unidos, tornando uma escola que nem sempre teve as melhores referências, numa escola de prestígio e a melhor escola de Artes do concelho.
São muitas as lembranças que guardo, uma delas está de facto relacionada com o professor, pois foi aquele que conseguiu fazer com eu compreende-se a Geometria Descritiva e fomenta-se uma grande paixão e fascínio por essa disciplina. Recordo-me que no 10º ano tinha outro professor, que não o Jorge, o qual nunca foi capaz de me transmitir como é que a geometria funcionava, como a compreender e como a visualizar. Nessa altura eu, como muitos dos alunos hoje em dia, procurava decorar os processos e estava à espera de receitas exactas para solucionar os exercícios. O que aparentemente funcionava pois tinha das melhores notas da turma, no entanto nunca havia percebido exactamente o que estava a fazer.
Só no 11º ano, quando o Jorge se tornou meu professor na disciplina de Geometria Descritiva, logo a partir das primeiras aulas que se deu o meu insight, isto é, todos os conhecimentos isolados que possuía uniram-se e começaram a fazer todo o sentido e a relacionarem-se entre si. Finalmente eu compreendi o sistema da geometria, o seu funcionamento e a conseguir visualizar e raciocinar a partir daí. O que me entusiasmou, deixando-me bastante motivada para a continuação da aprendizagem da disciplina. E quando ficamos motivados são espantosos os resultados que conseguimos alcançar, pois começa a existir um maior empenho, esforço e dedicação que nos conduz inevitavelmente ao sucesso.
Foi assim o início de um grande fascínio e interesse, que ainda hoje, nutro pela disciplina, e também um grande interesse em fazer com que outros também percebam como eu percebi. Ao pensar um pouco nas razões que me levam a desejar ser professora, esta é uma delas, pois gostaria muito de me tornar pelo menos para alguns alunos, senão para todos, aquela que os levou a compreender, perceber, e mesmo apaixonar-se por algo que à partida parece muito complexo, mas que no fundo é bastante simples.
O Jorge foi muito importante para mim pois mostrou-me a Geometria Descritiva, no entanto não posso deixar de referir outros professores que foram também bastante marcantes no meu percurso escolar. Saliento aqueles que estão relacionados com as disciplinas de Artes, pois foram aqueles com os quais criei maiores laços e com os quais acabámos por conviver maioritariamente. Cada um na sua especificidade, mas que no conjunto me deram as bases da pessoa que hoje sou, e bases bastante diversificadas. O professor Artur que me mostrou a parte obscura da fotografia, isto é, a câmara escura e os procedimentos de revelação da fotografia a preto e branco. O professor Ilídio que me encaminhou no percurso do design, levando-me a acreditar que sou capaz de idealizar e construir aquilo que entender. E o professor Paulo Calçada com a sua irreverência conduziu-me através do mundo da pintura, mostrou-me a serigrafia e muitas mais coisas relacionadas com as artes plásticas em geral.
Para além das aprendizagens relacionadas com as disciplinas específicas que cada um deles leccionava, mais importante ainda foram as experiências que me permitiram vivenciar muito para além do trabalho em sala de aula. Pois os anos em que estive no ensino secundário foram dos anos de maior proximidade entre alunos e professores. O facto de se realizar anualmente a semana da Artes intitulada Comercuzolhos, em muito contribui para esta intimidade, e também para a vivência de experiências fabulosas. Esta era a semana na qual tínhamos a oportunidade de mostrar a toda a comunidade escolar, o trabalho desenvolvido ao longo do ano nas diversas disciplinas, como Oficina das Artes, Materiais e Técnicas de Expressão Plástica, Teoria do Design, Português, História das Artes, entre outras. Mas também trabalhos desenvolvidos em paralelo às disciplinas relacionados com as artes.
A razão porque esta semana era tão especial não tem haver com os trabalhos em si, mas com tudo o que estava envolvido para criar a exposição dos trabalhos e as actividades de animação que decorriam durante essa semana. Existia uma grande interactividade entre alunos, professores, funcionários e gestão de modo a unir esforços para a montagem das exposições e organização das actividades, ao ponto de passarmos fins de semana na escola, confeccionarmos nós mesmos a comida na cozinha da escola e dormirmos nas salas. Tudo era feito com o objectivo de expressar algo que existia dentro de nós, e que todos nós partilhávamos, a Arte. Para nós realizar tais tarefas não era uma obrigação mas um fascínio, e ao mesmo tempo era a forma de convivência que tínhamos, todos gostávamos de realizar coisas de participar, pelo gozo que isso nos dava.
Por isso, espero que o Jorge encontre na escola nova esta ligação forte entre alunos e professores, alunos motivados e empenhados, para que continue a obter recordações fantásticas como as da Escola Secundária dos Casquilhos. E eu desejo que, agora que estou no lado dos professores, consiga cativar, motivar e relacionar-me com os alunos, de modo a continuar a coleccionar momentos maravilhosos como os que guardo desses tempos de aluna, e de modo a deixar nos alunos também impressões e recordações positivas e inesquecíveis.
Com carinho
Sónia Luz
Análise da carta da colega Sónia Luz:
A partir da carta da colega, podemos caracterizar o perfil do professor Jorge Duarte, retirando dela duas ideias principais em referêcia a este docente, e que ilustram quão forte e potenciadora de aprendizagem pode ser a ligação professor-aluno: a de que o professor conseguira tornar simples e facilmente apreensíveis um conjunto de conhecimentos, que até então não faziam sentido enquanto sistema – quando a colega refere que “(…) logo a partir das primeiras aulas que se deu o meu insight, isto é, todos os conhecimentos isolados que possuía uniram-se e começaram a fazer todo o sentido e a relacionarem-se entre si”, e a motivação que surgiu quase como consequência, e que quase em simultâneo produziu uma facilitação da aprendizagem. Como foi referido na carta houve um processo de aprendizagem-motivação-aprendizagem: “O que me entusiasmou, deixando-me bastante motivada para a continuação da aprendizagem da disciplina. E quando ficamos motivados são espantosos os resultados que conseguimos alcançar, pois começa a existir um maior empenho, esforço e dedicação que nos conduz inevitavelmente ao sucesso.”
De qualquer modo penso estar subjacente na carta a ideia de que o professor seria um bom comunicador, e teria uma relação interpessoal favorável à aprendizagem, pelo menos segundo a experiência do ponto de vista da colega. Neste sentido o seu “insight” pode ser entendido como um processo desencadeado pelo professor, devido às suas capacidades para tornar acessível o conhecimento, o que levou à motivação da colega.
Neste sentido penso que o seu perfil terá uma dominância do modelo Behaviorista, pela eficácia da sua comunicação, com fim à aprendizagem, não por imitação, mas fornecendo os mecanismos para que cada aluno entenda e elabore raciocínios próprios e possa conduzir de forma mais proveitosa a sua própria aprendizagem. Digamos ainda que no nível de ensino em que nos situamos, e tratando-se da disciplina de Geometria Descritiva em concreto, o perfil do docente estaria limitado a conteúdos que não lhe possibilitariam abordagens muito diversas, mas ainda assim poderia ter-se limitado a uma repetição normativa dos conteúdos, o que não parece ser caso.
