Manifesto pedagógico



Os cinco verbos no ensino das ARTES visuais

ARMAZENAR – mostro e gosto que me mostrem coisas, imagens, objectos, movimentos, cores, texturas, tudo aquilo que pode servir para conhecer e dar a conhecer. Por vezes estou farto de tantas coisas, tantas imagens, objectos, movimentos, cores, texturas… Mas apenas se mos der posso recusar tudo isso. A busca incessante por que tudo aquilo que existe e nos pode interessar é fundamental para criar e sustentar as nossas ideias.


REFLETIR – Sozinhos ou em grupo podemos refletir sobre o que pretendemos fazer, sobre o que fizemos. A reflexão através da arte, enquanto produzimos, pensamos, realizamos, e depois disso nos apercebemos. O espanto de ser diferente antes e depois da arte. O espanto de poder crescer mais depressa pela arte, mas conservar o gosto da criança, a pegar no lápis de cor.

TRABALHAR – priveligio a quantidade de trabalho apresentado, a insistência, a tenacidade. Pela quantidade de trabalho revela-se um processo, uma busca, a evolução do pensamento. Esta quantidade ajuda muitas vezes à qualidade, se for plena de sentido. Através desta capacidade, supera-se e enche-se o vazio. Reinterpreta-se aquilo que fez. Podemos encontrar do que começou por ser nada muito do sentido. Gosto de muita quantidade porque sou às vezes preguiçoso.

EXPERIMENTAR - aprender todas as técnicas, poder materializar as intenções, poder frustrar-se, admirar-se, descobrir, fazer de alquimista. Na sala não gosto de dizer tudo, gosto de os surpreender, e em troca sou também muitas vezes surpreendido. Arriscar, sobretudo quando se ouve:” Tu é que sabes, faz como gostares mais. Experimenta, se sair mal tenta de outra maneira”. O erro é a oportunidade de apreciar que algo foi feito, ainda que mal, mas que pode proporcionar outras aprendizagens, uma progessiva melhoria, até à satisfação ou alcance do objectivo, ou à desistência. O erro não pode desmotivar, e como tal deve ser sempre saudado. E de forma suave apontado, como algo que se pode melhorar, e não é nunca inútil, se não quisermos que assim seja.


SENTIR – A arte como observação, reflexão do real e dos sujeitos, daquilo que está em todo o lado, e é a qualquer momento. Não gosto de banalizar a arte, mas gosto do quotidiano rico, onde por vezes me esqueço da arte e da escola, e onde vivo as coisas como todos os outros. Mas gosto que para o diálogo sobre arte, sejam os alunos abertos a vivências, sujeitos a emoções, ricos do ponto de vista sensitivo e sentimental.
 
 
Esta síntese resulta de uma reflexão pessoal a partir de considerações e emanadas a partir da partilha de experiências com colegas, durante este curso de mestrado, bem com de leituras e analíse de textos, para as várias disciplinas, durante o curso de mestrado em ensino da Artes Visuais. Destaco em particular alguns nomes como Paul Duncun, cuja importância conferida ao conceito de Cultura Visual e à sua integração, transposição como nova leitura e reformulação dos conteúdos no ensino básico e secundário me parecem propositadas.


Duncun refere  assim que a educação artística deveria hoje incorporar a cultura visual como substituição de uma visão tradicional, acrítica, despoletando um sentido reflexivo dos indivíduos, levando-os a interrogar o seu “self” e a sua realidade. Ao mesmo tempo a sua virtualidade reside também numa leitura da artes e dos fenómenos artístico numa linha de evolução que permite não segregar a arte erudita, das manifestações artísticas, mais populares, e mais apelativas para um público em formação. Esta linha de orientação é na minha óptica uma estratégia que poderia ser aplicada noutras disciplinas, bem como me parece ser promotora da transversalidade de conteúdos, dos quais destaco os valores, que poderãoser facilmente incorporados numa narrativa segundo a perspectiva da cultura visual.


“O desenvolvimento da responsabilidade social e de comportamentos orientados por princípios éticos envolve uma intrincada combinação de conhecimentos, capacidades e atitudes. Este desenvolvimento depende, entre outros elementos, da análise e discussão de casos, ou seja, narrativas/histórias cujo enredo promove a reflexão sobre as complexidades da vida, reparando os cidadãos para os desafios das suas existências individuais e colectivas“. (REIS, 2007)

Considero absolutamente necessária a formação nos e para os direitos humanos, como algo que não pode ser deixado ao arbítrio da decisão de cada aluno, ou de cada professor. Essa parece-me ser uma prioridade na educação. As artes visuais penso poderem desempenhar neste sentido um papel fundamental, desenvolvendo outras capacidades de observação, de dar o retorno à interepretação da sociedade, tornando-se assim portadoras de opinião e construtoras de juízos.
Em termos da didática, na adopção desta visão, potencia-se também uma mudança, uma vez que baseamos a experiência e aprendizagens artísticas (não fugindo aos valores trabalhados numa linha formalista-cognitiva, ou mesmo às valências do ensino mimético, uma vez que pode incorporá-los pontualmente) num conhecimento da história, das realidades, e numa interpretação transversal pessoal significativa. Quer para os alunos quer para o professor. De acordo com uma visão pós-modernista da realidade, do ensino.
Esta visão também nos permite mais facilmente situar e inserir a nossa realidade, através do conhecimento e análise das imagens nessa narrativa pessoal, realizada por cada um dos alunos. Como Pedro Rocha dos Reis cita em “As narrativas na formação de professores e na investigação em educação” ( http://revista.fct.unesp.br/ojs/index.php/Nuances/issue/view/23 ) :
As histórias constituem, ainda, um meio de organizar o conhecimento, de estruturar o currículo, de captar a atenção dos alunos e de facilitar a comunicação e a apropriação de significados (ROLDÃO,1995).

Savater apresenta-nos a noção de identificação por parte dos alunos com os modelos que lhe são disponibilizados, ou a sua rejeição, numa gestão de afectos, que podemos extrapolar do nível familiar para o nível de sociabilização mas alargada na escola – como é também referidoa nível familiar. Esta gestão deve ser também atendida na relação professor-aluno. Depois de conseguir uma identificação, a possibilidade do aluno, nos ouvir, nos respeitar, de trabalhar é muito maior, sendo que continua a existir todo um mundo atractivo fora da escola. É com a boa gestão afectiva que podemos alcançar o ponto em que trabalhamos as competências com melhor eficácia. Neste sentido sigo um pouco a tendência identificada por Ana Sousa:
Apesar de alguns docentes apenas valorizarem a comunicação sob a perspectiva das técnicas da oralidade, a maioria associa esta qualidade à relação professoraluno, algo que consideram fundamental nas áreas artísticas, onde o produto do trabalho se relaciona sobremaneira com a pessoa que o aluno é. Para estes docentes, o ensino das Artes Visuais implica uma relação pessoa a pessoa, pelo que o professor de Artes Visuais é alguém que comunica numa relação de grande proximidade e empatia com os alunos.”

Ver:
www.educacao-artistica.gov.pt/interven%C3%A7%C3%B5es/Ana_Tudela_Lima_Sousa.pdf

Ainda no mesmo texto Savater afirma a necessidade de uma dose de “coacção, de luta entre vontades”. Para conseguirmos chegar a este ponto, temos de contornar obstáculos, chantagear (termo referido pelo autor que subscrevo), mentir, enganar – sem ser descoberto, claro - e dando sempre uma explicação. O ensino, além de um exercício de treino de competências, tem por trás uma manipulação dos alunos, cujo objectivo final é o máximo desenvolvimento harmonioso possível.
Quanto mais presente e constante for esta “manipulação” por parte do professor mais trabalhamos os alunos para que as suas competências sejam convocadas e expressas de forma musculada, eficaz.
Como referi em trabalho de grupo para a disciplina de Currículo e Avaliação do mestrado em ensino das artes visuais: “A missão do professor já não é a de conduzir a aprendizagem, nem fornecer informação, mas mediar o conhecimento, construí-lo. Ser professor é ser um elo entre o aluno e o currículo, entenda-se todos os mecanismos e elementos que concorrem para a formação do aluno – o SEU currículo. Não detem poder absoluto sobre este, mas pode servir de estruturador, de modelo, de referência para as aprendizagens futuras, como suporte da própria reflexão pessoal e activação de competências por parte dos alunos.”